Meus caros parentes,

Meus irmãos de sangue, primos, tios e tias, avós, filhos, netos e bisnetos, mães e pais, Eggers do mundo inteiro que cruzaram fronteiras, agora e no passado, até este décimo-sexto encontro internacional da nossa família.

            Estamos aqui reunidos setecentos e quinze anos depois que Hans, o administrador de Hamburgo, fez o primeiro registro dos eggers. Ele nos deixou um legado de rosas brancas no escudo e um brasão sem manchas. Não foi profecia, mas um traço de caráter que marca a nossa família. Um escudo guerreiro, impondo a lei e o direito, coberto das rosas brancas da paz e da boa-vontade. E um brasão que jamais aceitou manchas, um caráter rígido, intransigente em seus princípios. Pode-se sentir esse traço genético ao longo de mais de sete séculos, e nosso antepassado deve tê-lo herdado de outro tanto de lutas que deixou para trás nos anos difíceis da idade média.

Estamos aqui reunidos cento e setenta e seis anos depois que o primeiro eggers pôs os pés no Brasil, este paraíso tropical. Georg Julius Carl eggers veio de Hannover, do mesmo lugar de onde saiu outro Georg que se tornou rei da Inglaterra, e fundou uma dinastia que chegou ao auge com a rainha Victoria.  Tataravô de muitos de nós, o primeiro eggers brasileiro chegou ao rio de janeiro como soldado da infantaria de Pedro primeiro, para defender a integridade do território do império do Brasil na guerra cisplatina. No ano seguinte de sua chegada ao rio, ele já está em terras gaúchas, envergando o uniforme azul e branco do 27º batalhão de caçadores, disposto a dar seu sangue e sua vida por este país.

 Em 1830, dois anos depois do fracasso brasileiro que resultou na independência do Uruguai, nosso tataravô tem baixa como sargento, e se estabelece com comércio e colonização em São Leopoldo, lugar de chegada dos colonos alemães. Lá ele casa e tem quatro filhos. Em 1840, vai a Alemanha e volta com o cargo de cônsul comercial do reino de Hannover.

            Os colonos a quem ele apoiou, íam ocupando a região do rio dos sinos, perto de Porto Alegre, a pouco mais de cem quilômetros do lugar onde estamos. Depois, entrando pelos rios, o único meio de acesso, subiram o taquari, em cujas margens íam se estabelecendo e criando cidades. Eles fugiam de dificuldades na Alemanha, mas aqui encontraram uma natureza hostil, com animais selvagens, doenças e índios que eram os donos da terra. Sua persistência, sua capacidade de trabalho, sua fé, os tornaram vencedores. Encontraram um mundo novo e aqui começaram nova vida. As famílias cresceram e prosperaram. E foram se identificando com os costumes dos que aqui haviam chegado antes. Ontem à noite, estivemos num centro de tradições gaúchas, e nosso encontro lá bem simbolizou essa transformação em que formamos uma nova civilização, com uma nova cultura, num país tolerante, sem diferenças raciais e religiosas, que a todos acolhe e a todos considera iguais, não importa a cor da pele, dos olhos ou dos cabelos, não importam que idéias políticas se defende. Nós, brasileiros, somos todos iguais como cidadãs e cidadãos, e isso nos orgulha, porque nos identifica com a humanidade, não com uma cor, uma raça, uma religião ou uma ideologia. Eggers ou Silva, somos todos irmãos neste país.

            É com esse espírito aberto, de fraternidade, que os recebemos com nossos braços e corações igualmente receptivos. Os que atravessaram o oceano outra vez, agora pelo ar, para um encontro com este mundo diferente; que estão longe de casa só fisicamente, queiram sentir-se em seus lares junto de nós, como a grande família que somos. Os que descendem, como nós, de imigrantes alemães que foram para outros países compreendem bem o que sentimos ao recebermos os que representam as nossas origens e os que representam outros ramos desta frondosa árvore dos Eggers, com raízes sem manchas e produtora de bons frutos. Assim como recebemos nossos parentes europeus, da Alemanha, Áustria e Dinamarca, nos identificamos com nossos primos e primas do Chile, da Argentina, do Paraguai, nossos companheiros do cone sul, os dos estados unidos e da longínqua Austrália – todos países que receberam imigrantes que procuravam uma vida melhor, em cada circunstância da história européia. Também damos as boas vindas aos nossos compatriotas que vieram de São Paulo, do Paraná, de santa Catarina e de várias partes do rio grande do sul.

            Estamos aqui reunidos dando continuidade aos objetivos das primeiras reuniões realizadas na Alemanha, desde 1879. Este é o primeiro encontro fora da Europa. Uma honra para o Brasil e para esta cidade de Estrela. Como os reis magos, Eggers de todo o planeta vieram em direção à Estrela, trazendo os presentes da alegria, da fraternidade, do convívio familiar, em torno do sobrenome que nos une. E, como na outra história da estrela guia, aqui também há uma mulher, que é a causa do brilho maior desta festa em estrela. Foi graças ao trabalho de nossa prima Ilse Eggers Wagner que esta reunião familiar pôde se realizar com todo esse sucesso, juntando mais de 750 pessoas. E também do Günther Wagner que, mesmo sem ter eggers no nome, trabalhou com o mesmo afinco, e é também um integrante desta grande família. Obrigado a vocês dois.

            Esta é uma reunião que festeja a força familiar. Lembro-me de que em junho de 1994, quando se comemoravam os cinqüenta anos da invasão da Europa, fomos, eu e minha família, à Normandia, e visitamos o cemitério alemão, na retaguarda das praias de desembarque. Imediatamente procurei Eggers no livro dos ali sepultados, e encontrei Robert Eggers. Não foi difícil chegar à sepultura daquele nosso parente e conhecer um pouco mais dele. Morreu um mês antes de completar dezenove anos, como cabo de artilharia de costa, seis dias depois de ter começado o ataque ao continente. Fiquei emocionado, porque meus filhos de nove e sete anos foram procurar flores para por sobre a lápide, e antes tiveram o cuidado de, com as mãos, limpar bem o granito escuro onde estava escrito o nome daquele parente.

Estava ali uma parte da nossa família, sem importar de que lado lutava, ou o que defendia. A força familiar superava as distâncias, o tempo, os países e as circunstâncias da história. Aqui, neste dia e nesta cidade, os Eggers se reúnem sob o símbolo de um brasão sem manchas e de um escudo com rosas brancas. Que o significado da palavra re-união possa ser ainda mais forte a partir de hoje, para que vínculos se estreitem, parentesco, amizade e fraternidade sejam sinônimos e que os momentos que aqui estamos vivendo fiquem para sempre, e que saibamos transmitir este espírito para nossos filhos, netos e bisnetos. Quem sabe quando, no futuro, algum de nossos descendentes possa querer comemorar cada centenário deste encontro. Porque estamos aqui por causa de nosso passado, para viver o presente e preparar o futuro.